Cetamina subcutânea para depressão: como funciona e para quem é indicada
Muita gente chega ao meu consultório depois de anos tentando. Já usou dois, três antidepressivos, fez terapia, mudou hábitos, e mesmo assim a energia, o foco e a vontade de fazer as coisas não voltaram por inteiro. Para parte dessas pessoas, a cetamina em dose baixa, aplicada por via subcutânea, é uma possibilidade real de recuperar a qualidade de vida. Neste texto, explico como ela age, para quem é indicada e como é o tratamento que faço em Campo Grande.
Quando o tratamento comum não basta
Chamamos de depressão resistente o quadro que não melhorou de forma satisfatória com pelo menos dois antidepressivos, usados na dose e pelo tempo adequados. Não é raro: cerca de um em cada três pacientes com depressão não chega à remissão com os primeiros tratamentos. Muitas vezes a pessoa melhora um pouco, mas fica "pela metade": funciona, trabalha, mas sem brilho, sem disposição e sem prazer.
Antes de pensar em cetamina, sempre reviso o básico: o diagnóstico está certo? O sono está tratado? Há ansiedade, uso de álcool, doença da tireoide ou outro fator mantendo o quadro? As doses e o tempo dos remédios foram suficientes? Muitas vezes o ajuste está aí.
Como a cetamina age no cérebro
Os antidepressivos comuns agem principalmente na serotonina e na noradrenalina, e levam semanas para fazer efeito. A cetamina age em outro sistema, o do glutamato, o principal mensageiro excitatório do cérebro. Em dose baixa, ela dispara uma cascata que estimula a formação de novas conexões entre os neurônios, especialmente em áreas ligadas ao humor, à motivação e ao pensamento.
É por isso que, em parte das pessoas, a melhora aparece em horas ou dias, e não em semanas. E é por isso também que ela pode ajudar quem não respondeu aos remédios tradicionais: o caminho é diferente.
Por que a via subcutânea
A cetamina pode ser aplicada na veia, no nariz (a escetamina em spray, aprovada pela Anvisa para depressão resistente) ou sob a pele. Eu escolhi a via subcutânea por três motivos. Os estudos mostram um efeito antidepressivo equivalente ao da aplicação na veia, e essa é também a experiência do grupo do professor Acioly Lacerda, da UNIFESP, referência brasileira no uso da cetamina em psiquiatria. É mais simples: uma pequena injeção no braço ou na barriga, sem soro e sem precisar puncionar a veia, o que é mais confortável e não machuca. E a absorção é estável, o que torna a sessão previsível e segura.
Os estudos com a via subcutânea, incluindo um ensaio clínico randomizado australiano publicado em 2023, mostraram benefício na depressão resistente, com boa tolerância quando o tratamento segue protocolo e monitoramento. O uso da cetamina para depressão é fora da bula, como acontece com outros tratamentos em psiquiatria, e por isso exige critério na indicação e acompanhamento médico de perto.
Para quem é indicada
A terapia com cetamina em baixa dose é indicada principalmente para:
- Depressão grave, em que é importante uma melhora mais rápida;
- Depressão resistente, que não respondeu bem a outros tratamentos;
- Redução rápida de pensamentos de morte ou ideação suicida, sempre junto do acompanhamento psiquiátrico contínuo.
Ela não é primeira escolha e não substitui o restante do tratamento. Entra como parte de um plano completo, que inclui medicação quando indicada, terapia, sono, atividade física e acompanhamento entre as consultas.
Como é o tratamento
Tudo começa com uma consulta de avaliação: sua história, os tratamentos que já fez, sua saúde clínica, a pressão arterial e, se necessário, exames. Só depois disso decidimos juntos se a cetamina faz sentido para você.
- Dose: baixa, de 0,5 a 1,0 mg por quilo de peso, por via subcutânea.
- Ciclo inicial: habitualmente 4 a 6 sessões, com uma ou duas aplicações por semana.
- Ambiente: aplicação no consultório, em ambiente médico, com monitorização adequada do início ao fim.
- Acompanhamento: a cada etapa, você responde escalas de humor pelo app do consultório. Assim medimos a resposta com dados e ajustamos o plano.
No dia da sessão, venha com um acompanhante. Nos minutos seguintes à aplicação, é comum uma sensação de leveza, de distanciamento ou de sonolência, que passa sozinha. Você fica em repouso e sob observação, e vai para casa quando estiver bem. Nesse dia, não dirija nem tome decisões importantes.
Efeitos colaterais e quem não pode fazer
Em dose baixa e com monitoramento, os efeitos costumam ser leves e passageiros: sensação de dissociação, tontura, náusea, aumento temporário da pressão e sonolência, que em geral passam em uma a duas horas.
Algumas condições pedem cuidado ou contraindicam o tratamento: pressão alta não controlada, algumas doenças do coração, psicose, gravidez e uso atual de drogas. Quem tem histórico de uso de substâncias precisa de uma avaliação mais cuidadosa. Por isso a avaliação sempre vem antes.
O que esperar
A resposta varia de pessoa para pessoa, e nenhum tratamento funciona para todos. Em quem responde, a melhora costuma aparecer nas primeiras semanas: mais disposição, mais vontade de fazer as coisas, a cabeça mais leve. Depois do ciclo inicial, combinamos os próximos passos conforme a resposta, e o foco passa a ser manter a melhora: sono em dia, rotina, atividade física e o restante do tratamento.
O objetivo não é só sair da depressão. É voltar a ter energia, foco e prazer para viver bem.
Quer saber se a cetamina faz sentido para você? A primeira conversa é pelo WhatsApp. Você tira suas dúvidas e agenda a avaliação, presencial em Campo Grande.
Dr. Carlos Renato de Lima Periotto é psiquiatra (CRM-MS 5978 · RQE 6949), com residência pelo Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto (USP) e mestrado em Neurociência, na área de Medicina do Sono, pela UNIFESP. Atende em Campo Grande – MS e on-line.
Este conteúdo é informativo e não substitui uma consulta. Referências: Lacerda ALT, Del Porto JA. Uso da cetamina no tratamento de transtornos psiquiátricos e dor crônica: teoria e prática. · Loo C. et al. Efficacy and safety of a 4-week course of repeated subcutaneous ketamine injections for treatment-resistant depression (KADS study). British Journal of Psychiatry, 2023.
